PAÍS DO TRÂNSITO ENGARRAFADO
Houve um dia em que o trânsito parou. Mas, parou de vez, de uma vez por todas. No seu normal, ele engarrafava por algumas horas, três, cinco, oito, mas nesse dia ele parou e não havia perspectiva de volta.
Resultou de uma dupla de congestionamentos iniciados em São Paulo e no Rio. Encontraram-se no meio da Rio-São Paulo. Foi a festa dos vendedores de água e biscoito de polvilho, que puderam enriquecer, aplicaram recursos na bolsa,, constituíram lobby no Congresso e iniciaram uma nova era na política nacional. Com o passar do tempo vieram os ambulantes trazendo outros produtos, CDs, DVDs, vassouras, apólices de seguro, serviço de barbearia, essas coisas. Ninguém sabe como foi possível, mas o carro-da-pamonha foi visto passando e anunciando "pamonha quentinha".
O trânsito ficou de um jeito que ninguém conseguiu mais se lomomover com o seu veículo. Nenhum serviço mais funcionava nas cidades do país, já que os prestadores estavam todos imobilizados, o fornecimento da água, do gás, da energia elétrica, os mercados. Produtos básicos, como bebida e cigarros, também começaram a escassear, causando uma série de distúrbios sociais incontroláveis. Parecia ser o fim de uma nação.
Mas, há uma plasticidade nos homens, em sua natureza humana, em se adaptar às circunstâncias; e assim, ninguém retornando a seu domicílio e ao local de trabalho, ficou todo mundo pela estrada, parado, moldando uma vida nova, conforme determinavam as novas condições de existência.
O IPVA teve que ser revisto, aumentou extraordinariamente, não poderia ser de outro jeito. Vivia-se como cigano, à beira da estrada, cultivando-se hortaliças, criando-se aves. As antigas residências soçobraram, o mato cresceu dominando o ambiente urbano. Essas habitações lembravam as do filme do Planeta dos Macacos.
Em alguns anos, o país se transformou na "terra do trânsito". Rapidamente criou-se o estigma de que "brasileiro é bom de trânsito" e dizia-se que "Deus era guarda de trânsito". Não tinha mais pra ninguém. O Brasil começou a fazer fama e a exportar congestionamentos. A Europa achava chique ter em suas vias um quê do exótico trânsito tupiniquim.
Até chegar um dia em que a Alemanha produziu um engarrafamento monstruoso: pilhas de veículos, caminhões, automóveis, andares triplos de carcaça de metal e ferro, edifícios de lataria ao longo das estradas. A força da sua indústria automobilística, a tradição.
O Brasil saiu humilhado. Não tinha mais o maior trânsito congestionado do mundo. A presidente do país, em seu quinto mandato consecutivo, explicava à imprensa que o fato era inexplicável. Dizia que isso era papo de gente pessimista, que o importante era o legado dos engarrafamentos.
Aí, tiveram a ideia de chamar um motorista que dirigia caminhão, no passado, para auxiliar, com sua experiência, no resgate do congestionamento, em prol de melhorar a baixa estima da população, trabalhando para que o trânsito voltasse a seu patamar de superioridade mundial.
E depois disso, os argentinos, com seu trânsito mais endividado que engarrafado, não pararam mais de zoar os brasileiros.

Nenhum comentário:
Postar um comentário