13 DE JULHO
Torcendo
para o Rock
Nesse
domingo, o reino encantado do futebol estará dividido entre torcer
para a Argentina e a Alemanha. E como as mídias estarão focando o
jogo, o aniversariante do dia - o Rock - deve passar despercebido. É
torcer para que Carlos Santana, um remanescente de Woodstock, que
estará no fechamento da Copa, lembre o fato e faça alguma menção.
Antes
que os "patriotas" ou os "nacionalistas" comecem
a jogar pedras, para dizer que rock é coisa estrangeira, vou logo
dizendo que o futebol veio da Inglaterra (oficialmente), e o samba,
do batuque africano. Aliás, o Brasil é feito de misturas.
Curiosamente, a cultura nativa não assimilou o blues e o rock
propriamente dito como elementos seus, como constituintes harmônicos.
Em parte, essa é a bronca e a crítica do Lobão anunciada em seus
livros. O que faz também lembrar um amigo meu, vidrado no estilo,
que lamenta e não se conforma com o fato de os negros bluseiros
terem desembarcado ao Norte das Américas e não ao Sul, para onde
acorreram os mais afeitos ao samba. Gosto não se discute.
Para
todos os efeitos, o país do futebol é a Inglaterra, que, por sua
vez, soube assimilar o blues americano e providenciou maravilhas como
os Beatles e os Stones, Eric Clapton, Pink Floyd, só para citar
algumas expressões. Brasil é o país da antropofagia cultural, como
ensinaram os modernistas da Semana de 1922, onde se mistura de tudo
para resultar algo novo. É inegável que daí se forme uma grande
riqueza, um extenso caldeirão na música e na arte, como um todo. E
no futebol, apesar dos tropeços e tombos recentes.
Não
é fácil mesmo falar de cultura. Muito menos tecer parâmetros sobre
o que seja mais valioso ou útil ou verdadeiro, seja lá qual for a
categoria de análise. Não sou contra o futebol, é divertido jogar
bola com os amigos. O problema é quando entram as somas vultosas de
dinheiro determinando um hipnótico ritual de adoração, uma onda
quase irresistível de idolatria. Ok, no mundo do showbusiness também
existe isso, o rock não escapa. Mas, também não concordo com a
idolatria no rock ou em qualquer estilo musical, ou em qualquer
lugar. Por mais que uma arte possa legar obras geniais, artistas são
de carne e osso, têm seus defeitos, como todos nós. Lições que
aprendemos agora é que nossos jogadores não são deuses do Olimpo e
Deus não é brasileiro coisa nenhuma. Na verdade, Deus está de olho
no Brasil, para ser uma terra de promissão, o celeiro de um novo
mundo, mas não quer dizer que seja exatamente ou exclusivamente em
relação ao futebol. Ele fala também outras línguas.
O
estilo musical Rock - mas, pode ser chamado de postura de vida -
nasceu quando pegaram o blues e o radicalizaram adicionando elementos
de contestação. A batida acelerou, e a partir daí pintou-se e
bordou-se com a famosa escala pentatônica. A sequência mágica de
apenas cinco notas musicais que conseguem até hoje produzir obras e
malabarismos interessantes. A pentatônica é envolta de uma aura,
encantada, a ponto de a criação do blues estar cercada de lendas,
entre elas a de que Robert Johnson teria recebido sua revelação de
um Exu, numa encruzilhada do Mississipi, nos idos da década de 1930,
e o fato estaria registrado numa de suas canções - Crossroads.
Muitos
no dia de hoje, final da Copa de 2014, se conflitam para saber em
quem torcerão. Alemanha, nosso algoz do 7 x 1, ou Argentina, o nosso
adversário "natural". Essa Copa será conhecida realmente
como a Copa das Copas: a Copa mais esquisita das Copas. A começar
pelos gastos faraônicos e sem controle, passando por sua abertura
cafona e insólita, uma presidente-candidata tomando vaia em
estádios, o roqueiro septuagenário Mick Jagger torcendo como
pé-frio, mordidas de jogadores vampirescos, joelhadas mal
explicadas, camelôs foragidos da própria FIFA...
Vida
que continua. A música não está adstrita a uma copa, a um evento,
ela rola a toda hora. Ouço de tudo o que é bom e de qualidade, mas
tenho certo carinho pelo Rock, uma ressonância que me mantém
acordado para o espírito de vigília e contestação. Nem por isso
direi que Deus é roqueiro, nem lamentarei que o Brasil poderia ter
sido o país do Rock, se o blues, e não o samba, tivesse
desembarcado aqui.
Concordo
com o vovô Jagger: It's only Rock and Roll, but I like it!
13
de Julho, de 2014

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