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quinta-feira, 17 de julho de 2014


13 DE JULHO

Torcendo para o Rock


Nesse domingo, o reino encantado do futebol estará dividido entre torcer para a Argentina e a Alemanha. E como as mídias estarão focando o jogo, o aniversariante do dia - o Rock - deve passar despercebido. É torcer para que Carlos Santana, um remanescente de Woodstock, que estará no fechamento da Copa, lembre o fato e faça alguma menção.

Antes que os "patriotas" ou os "nacionalistas" comecem a jogar pedras, para dizer que rock é coisa estrangeira, vou logo dizendo que o futebol veio da Inglaterra (oficialmente), e o samba, do batuque africano. Aliás, o Brasil é feito de misturas. Curiosamente, a cultura nativa não assimilou o blues e o rock propriamente dito como elementos seus, como constituintes harmônicos. Em parte, essa é a bronca e a crítica do Lobão anunciada em seus livros. O que faz também lembrar um amigo meu, vidrado no estilo, que lamenta e não se conforma com o fato de os negros bluseiros terem desembarcado ao Norte das Américas e não ao Sul, para onde acorreram os mais afeitos ao samba. Gosto não se discute.

Para todos os efeitos, o país do futebol é a Inglaterra, que, por sua vez, soube assimilar o blues americano e providenciou maravilhas como os Beatles e os Stones, Eric Clapton, Pink Floyd, só para citar algumas expressões. Brasil é o país da antropofagia cultural, como ensinaram os modernistas da Semana de 1922, onde se mistura de tudo para resultar algo novo. É inegável que daí se forme uma grande riqueza, um extenso caldeirão na música e na arte, como um todo. E no futebol, apesar dos tropeços e tombos recentes.

Não é fácil mesmo falar de cultura. Muito menos tecer parâmetros sobre o que seja mais valioso ou útil ou verdadeiro, seja lá qual for a categoria de análise. Não sou contra o futebol, é divertido jogar bola com os amigos. O problema é quando entram as somas vultosas de dinheiro determinando um hipnótico ritual de adoração, uma onda quase irresistível de idolatria. Ok, no mundo do showbusiness também existe isso, o rock não escapa. Mas, também não concordo com a idolatria no rock ou em qualquer estilo musical, ou em qualquer lugar. Por mais que uma arte possa legar obras geniais, artistas são de carne e osso, têm seus defeitos, como todos nós. Lições que aprendemos agora é que nossos jogadores não são deuses do Olimpo e Deus não é brasileiro coisa nenhuma. Na verdade, Deus está de olho no Brasil, para ser uma terra de promissão, o celeiro de um novo mundo, mas não quer dizer que seja exatamente ou exclusivamente em relação ao futebol. Ele fala também outras línguas.

O estilo musical Rock - mas, pode ser chamado de postura de vida - nasceu quando pegaram o blues e o radicalizaram adicionando elementos de contestação. A batida acelerou, e a partir daí pintou-se e bordou-se com a famosa escala pentatônica. A sequência mágica de apenas cinco notas musicais que conseguem até hoje produzir obras e malabarismos interessantes. A pentatônica é envolta de uma aura, encantada, a ponto de a criação do blues estar cercada de lendas, entre elas a de que Robert Johnson teria recebido sua revelação de um Exu, numa encruzilhada do Mississipi, nos idos da década de 1930, e o fato estaria registrado numa de suas canções - Crossroads.

Muitos no dia de hoje, final da Copa de 2014, se conflitam para saber em quem torcerão. Alemanha, nosso algoz do 7 x 1, ou Argentina, o nosso adversário "natural". Essa Copa será conhecida realmente como a Copa das Copas: a Copa mais esquisita das Copas. A começar pelos gastos faraônicos e sem controle, passando por sua abertura cafona e insólita, uma presidente-candidata tomando vaia em estádios, o roqueiro septuagenário Mick Jagger torcendo como pé-frio, mordidas de jogadores vampirescos, joelhadas mal explicadas, camelôs foragidos da própria FIFA...

Vida que continua. A música não está adstrita a uma copa, a um evento, ela rola a toda hora. Ouço de tudo o que é bom e de qualidade, mas tenho certo carinho pelo Rock, uma ressonância que me mantém acordado para o espírito de vigília e contestação. Nem por isso direi que Deus é roqueiro, nem lamentarei que o Brasil poderia ter sido o país do Rock, se o blues, e não o samba, tivesse desembarcado aqui.

Concordo com o vovô Jagger: It's only Rock and Roll, but I like it!

13 de Julho, de 2014

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